Espaço Idílico...

LEITORES...

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Olá...!

Estes poemas são lugares de minha casa emocional... sintam-se a vontade, estiquem as pernas e pensem em lugares da vida que pertencem as coisas da alma...

Sandro A.

Poetas e Escritores do Amor e da Paz

04/10/2011

ESPELHOS...


Meu espelho guarda coisas sobre mim,
todas ao contrário,
todas desmentidas,
assim inferidas,
entre o certo e o inconveniente,
entre o que acho ver
e o que vejo à uma jarda do espelho.
Acho que estou mais lá;
ao contrário de mim.
Antagônico.
Meu espelho mostra
todos os outros lados do absurdo,
do obverso,
da harmonia,
do estorvo,
do agrado,
da resistência,
desta minha resiliência,
do adverso.
Meu espelho me deixa nu de todas as minhas palavras
e me olho nos olhos,
e sou eu o reflexo.


San Rodrigues

NO SÉTIMO DIA...

No sétimo dia Deus não descansou;
bobice de quem tenha pensado
uma coisa assim de Deus,
essa eterna e imexível potência sentir-se cansado.
Ele sentou-se para palavrear
com anjos portentosos;
explicou-lhes como abrira as mãos
e deixara o universo escapar
para ser infinito.
Explicou-lhes de como encontrara
este grão tímido
e o convidara para ser a terra,
de que pegara as lágrimas mais profundas
da risada de um anjo
e fizera o mar,
que dera corda nos rios
para dançarem entre árvores e montanhas,
e fez cócegas na luz
e ela sorriu todas as cores.
No sétimo dia Deus não estava cansado,
estava chateado,
sentia que faltava um lugar no infinito,
uma flor no vale,
uma gota no mar
e certa curva no rio,
tinha certeza que faltava uma cor na luz;
explicou e balançou a cabeça dessaboroso.
Um querubim pensou por um dia,
coisa assim que dura mil anos,
e deu uma ideia nos ouvidos de Deus;
e Deus ouviu o querubim pela eternidade.
Sorriu.
E no sétimo dia
criou o poeta.


San Rodrigues

ESSA FOLHA...


Diante do papel casto,
a coisa se descoisificou
e o olhar virou orquídea,
a saudade virou mar,
o abraço um caminho,
a distância um parar,
os olhos um dia lindo,
uma lágrima o orvalhar,
um minuto minha vida,
toda vida a respirar.
Diante do papel incontaminado,
via em seu espelho
cardumes dourados,
dessas palavras que evitam vir a margem;
mas um dia as espanto de lá,
do fundo, para virem me dizer
nas águas de meu papel,
sobre a folha que foi caindo lentamente da árvore,
dançando,
esperando,
adormecendo
e eu encantado.


San Rodrigues

ONTEM...


Ontem, lá por volta de cinco minutos antes
da melhor hora do dia,
um poema campesino
fez amor com a geografia de minha alma.
Me levou três profundas respirações
e algumas lágrimas
e me deu aula de solidão
esse lugar,
o único lugar em que nascem as ideias.
E eu senti um peso súbito
que me levou ao fundo das coisas
que estão antes do meu olhar.
O poema campeiro,
meio rústico e sincero,
usava palavras com sentidos inteiros,
intensos, modernos, graves;
me falava de meus intervalos,
de minha alternâncias,
destas dissonâncias
e eu desembainhei austeridades de meu olhar,
mas rachei essas minhas pedras com um sorriso,
bati com firmeza de pelo menos uma esperança,
uma destas que flutuam frente a dimensão tensa.
Eu desvesti minhas frases,
deixei nus os paradigmas da infância,
corri desprotegido,
por que é assim que deve ser,
foi como o poema me disse
e olhou para meus pés,
e me falou de que deixaria algumas semente
de caminhos dentro de mim e me disse:
anda,
agarra o caminho com seus passos.
E fui guardando os dias no meu espaço pequeno,
dilatando novas parlendas,
fazendo acordos com minha essência,
violando a fé para afirmar minhas certezas.
Doíam pés, mãos e abraços;
e no fim de alguma tarde
de um silencioso e desesperado grito,
no meio de meu homem feito,
nasci.


San Rodrigues

03/10/2011

ESSE EU...

Escorri de uma destas manhãs dadaístas,
para as mãos de um jovem senhor hostil.
Ele não ria,
não chorava também,
não levava,
nem trazia,
não aceitava o silêncio,
mas não admitia os sons do dia.
Admitia o sono,
mas me acordava antes do sonho:
E no fim apertou a minha mão,
dando-me felicitações;
de que pela sede
aprendi a água,
de que pela noite
aprendi o dia,
de que pela ida
aprendi a voltar,
de que por perder
aprendi ganhar,
de que pelo susto
aprendi respirar,
de que pelo fim
aprendi começar,
de que pelo instante
aprendi a eternizar.
Bem, foi um prazer
conhecer o antagonismo.


San Rodrigues

FALANDO DE PENSAR...


Peguei meus pensamentos,
aqueles confortáveis,
bem-apessoados;
sabe aquele mais garbosos,
guapos graciosos,
deslumbrados,
especiais, donairosos,
aqueles treinados nos
passadiços acadêmicos;
empolados raciocínios de donos antigos,
nas duras e frias capas dos manuais.
Juntei-me aos meus pensamentos
mais apurados, burilados,
os de roupa de gala,
empertigados,
donos da verdade fria da vida,
e de todas as mortes.
Juntei-os todos entre as mãos,
com olhares compungidos e insubmissos.
Me dobrei aos dias de meus pais,
olhei para o beija-flor,
respeitei o musgo que ainda
nasce na beira do asfalto,
admirei o compositor
que não é dono das palavras
e honrei a sinfonia de mil sabiás.
Convulsionei minhas gramas de conceitos,
joguei todos os pensamentos para cima,
só refleti quando desordenei os pensamentos,
levantei-me
e era um homem.


San Rodrigues

POEMA AGUDO...

Temo que minhas melhores prosas
tenham me deixado cicatrizes,
que medem da alma até
a pele nervosa de todos os meus anos;
essa sacralidade guardada nos calendários.
Tenho-me em pedaços nas poesias;
em uns tenho alma,
em outros mente
e nos que doem, coração.
Um coração que dói
e morre ao meio dia,
outros que flamula até a tarde,
mas o coração da noite é concreto,
nesta paleta de poemas matizados.
A carne de meu choro
foi cortada profundamente
por versos navalhados,
fios que dividem;
eu, nós e eles são outra estrofe.
Mas temo;
foi assim temendo,
que esculpi na minha pedra de papel,
um rosto que me chama de multidão,
como estas que vão andando
e fazendo séculos no minuto.
Penso que não sou poeta;
minhas cicatrizes o são.


San Rodrigues

ESSA SEDE...


Penso que quando me faltam palavras,
é por que aquilo que quero descrever
é maior que elas.
Quero a palavra
como a sede quer a fonte.
Ah, ansiedade,
esse lugar da alma
que não aguenta o peso dos segundos.
Se eu ficasse livre ali,
todas as dores doeriam tão menos.
Mas o sol do instante
dispensa a luz da vela
de meu momento breve,
e tudo que tenho
é a espera,
essa coisa antes de chegar.


San Rodrigues

01/10/2011

O POETA...


O poeta não escolhe a poesia;
A poesia sim, escolhe o poeta
Como a relva que nasce na pedra e a esverdeia.
Assim a poesia nascendo no poeta,
A pedra imutável, fria, dura...
A relva verde, vida, nasce... cresce, vai segue em frente
O poeta fica a poesia vai, a poesia segue ardente,
Mas a poesia não esquece a pedra... o poeta ama a relva;
A relva cresce na pedra, a pedra se torna bela...
A relva cobre a pedra, logo se diz: olha a relva,
O poema cobre o poeta, logo se diz: olha o poema...
O poeta só é poeta quando não se vê a pedra
Quando se vê verde, quando se vê vida; eis a poesia,
Como é belo o poeta... Como é vida a poesia.

San Rodrigues

SÓ DE ACHAR...


Fui plantando, achando que colheria
Fui molhando, achando que secaria
Fui olhando, achando que via
Fui tocando, achando que sentia
Fui abraçando, achando que envolvia
Fui andando. achando que podia
Fui comprando, achando que teria
Fui tendo, achando que seria
Fui perdendo, achando que acharia
Fui chegando, achando que ficaria
Fui saindo, achando que voltaria
Fui escrevendo, achando que dizia
Fui apagando, achando que esquecia
Fui falando, achando que me ouvia
Fui odiando, achando que feriria
Fui ponderando, achando que perdoaria
Fui perdoando, achando que viveria
Fui vivendo, achando que morreria
Fui morrendo, achando que arderia
Fui ardendo, achando que apagaria
Fui apagando achando que escurecia
Fui clareando, e tudo oque vi é que achava...

San Rodrigues

BOLHAS...


Eu acendi a noite procurando uma palavra...

Não qualquer palavra, teria de valer a noite violada;

Queria que a palavra desvestida, que me dissesse;

doce e tênue explicasse, sentado no meu papel;

gotejando da ponta de minha caneta triste... Me explicasse

por que no meio do sono, eu não conseguia sonhar...

Porque no meio da respiração eu não conseguia ar;

e no meio do caminho eu não conseguia ir mais um passo mais.

Desses musicais, que encerram a tarde.

Tudo o que querendo viver, meu coração subvertia;

Eu quereria então que a palavra me explicasse, por que assim

tão derrepente a vida escapa, tão assim de leve, tão assim pesada.

Talvez eu tente proteger o movimento das coisas...

como quem tenta proteger uma bolha de qualquer sabão...

de qualquer sonho,

leve colorido,

de força frágil; que sobe tremulando

e faz festa.

Apaguei a noite

e amanheci menino.

San Rodrigues

PARALELOS...


Bem... coisas que não quero olhar;
não quero olhar a dor como o médico,
não quero olhar o prédio como o engenheiro,
não quero olhar o quadro como o pintor,
não quero olhar os alunos como o professor,
não quero olhar as flores como o jardineiro,
não quero olhar a música como o maestro,
não quero olhar a prisão como o carcereiro.

Quero exercer meu direito ao paralelismo;

quero olhar o prédio como o pintor,
quero olhar a sala de aula como o jardineiro,
quero olhar o quadro como o engenheiro,
quero olhar o jardim como o professor,
quero olhar a prisão como o maestro.
Mas a dor, bem esta eu não posso ver como o
carcereiro, o jardineiro, o pintor,o maestro, o professor,
ou qualquer um deles;
A dor só posso ver como o poeta.

San Rodrigues

UM GOLE DE POEMA...


O poema é assim...

Uma figurinha acanhada,

que decide não se mover muito rápido,

não falar muito rápido,

e morre de medo de analistas, ele foge dos divãns;

sim, um dia deste eu o encontrei

numa breve esquina de qualquer dia,

e tudo que ele me disse, é que

não tem a pretensão de ser entendido,

ele me disse que era apenas uma

brisa bem leve, destas que sopram no pensamento,

destas que, entram devagar pela alma a fora e

de alguma forma alcançam nossos mais antigos desertos,[

Ele me disse que gostava de parquinho...

de conversar bobagens e rir de bobeira,

de tomar guarana e andar na feira;

mas não tinha pretensão de explicar ou entender nada;[

apenas estar lá e sentir, e de alguma forma, por alguns instantes

embebedar de ludicidade nossos pensamentos mais sérios

Bem, o poema me disse:

- Se beber algum poema não dirija!!!

E riu bem gostoso...

San Rodrigues

POR FAVOR... NÃO DUVIDEM...


Não duvidem desta pequena verdade meus amigos,

o melhor lugar para se viver ainda é a vida,

este lugarzinho onde nos chocamos

e nos desentendemos,


onde onde coisas tomam o lugar de seres

e seres são tidos como coisas,

a vida ainda é o melhor lugar para viver,

pois ela guarda o reflexo de gerações


que insistiram continuar,

plantar para colher,

ir para chegar,


olhar para ver

e ler para entender...

mas nunca ficar passivo para o melhor presente da vida...

viver.

San Rodrigues

PRECISO SER RÁPIDO...


Vou tentar dizer alguma coisa,

mas preciso ser rápido,

preciso alcança-los antes que cresçam

e quem sabe num fim de tarde,

num desses que a infância resolve ir,

me esqueçam em algum lugarzinho da vida corrida...

Pequenos, quero lhes agradecer,

por que um dia eu tive a vida,

toda ela, invadida pela festa de vocês,

entre uma mamadeira e outra,

entre uma fralda e uma gripinha,

entre um carinho e um chorinho,

entre o berço e a escolinha,

entre o soninho e a corridinha,

Entre o colo e o cavalinho,

entre a maternidade e toda a vida.

Vocês me deram o direito a mais sublime

experiência desta coisa engraçada que é viver.

E quem sabe, em um destes fins de tarde,

num lugarzinho desta vida corrida,

Saiba dizer a vocês, com a palavra mais infantil

muito obrigado por me fazerem um papai...

San Rodrigues

NÃO SEI RIMAR...


Não sei rimar
A rima são duas distâncias,
duas palavras e suas significâncias,
o passo e a parada das andanças
Tentando se encontrar

Nunca tentei rimar
Tenho medo de aparências,
de palavras e conveniências,
dos conformismos e resistências
Deste jeito de falar.

Pensei em rimar
No dia em que vi uma flor
entre a pedra e o caminho
entre a noite e o vespertino
insistindo em exalar.

Decidi então rimar
Quando vi a semelhança
entre a palavra fé e a esperança,
Do indivíduo que as alcança
depois de muito lutar.

Assim fui lá e rimei
Rimei todas as palavras que achei
Amor com dor, pó com só, riu com viu
e no fim descobri que a melhor de todas as rimas
foi quando você sorriu.

San Rodrigues

BREVES LETRAS...

Assim mirei a cena e apontei meu olhar

olhei profundamente, não poderia ser de outra maneira

A alma é mais profunda que a pele

E lá, embaixo nela, todas, inevitavelmente

todas as esperanças do mundo me olhavam...



Procurei as palavras certas,

minha maneira de fotografar

transformar as imagens adverbiais

em fotografias que só as ideias podem ver...



Ai disparei, a luz numa insinuação

sorri contendo o instante,

eu resisti, os sons resistiram,

o instante resistiu, e eu só olhei...



Da ponta de minha breve caneta

da irresistível variação das letras,

aquelas tímidas instituições que de lá,

formam as palavras que fotografam as alma,

Eu insisti e escrevi seu poema.

San Rodrigues

NESTA FRESTA...


O tempo é assim,

aquele espaço entro o aqui

e o qualquer tempo.

Entre o qual nós, e nossas brevidades acontecemos

Houve um dia em que acordei,

me levantei e me debrucei

no parapeito da vida,

e entre um vagalhão e outro,

vi um mar de pessoas, que iam e vinham,


Voltei a me deitar, com medo,

tentando voltar a sonhar;

mas o sonho é um lugarzinho

que a realidade contesta,

neste espaço enorme que é o existir.



Mas bem, ter medo.

É a única explicação convincente

que a coragem encontrou

para enfrentar a eternidade do instante,



Este bloco, esta muralha,

que fica entre nós e o futuro,

essa coisa insistente

que acontece daqui a pouco.



E é ai nesta fresta,

entre meu berço e meu túmulo,

que insisto em acontecer,

deixando de ter tudo,

para possuir o que é essencial;



aquele olhar infantil,

sem lutar pela eternidade,

mas dono do instante infinito,

aquele adverbial espaço,

entre o aqui e o qualquer tempo.



Em que decido mostrar

os dentes e sorrir. Só isso.

Só assim. Por qualquer tempo.

Por existir.

San Rodrigues

SORRISO DE CANTO...

Ao ler o seu poema eu chorei...

Dessas lágrimas furtivas,

que quando saem chamam o passado,

numa dessas saudades guardadas

entre um dia frio e o casaco

entre o beijo e o abraço

entre a força e o cansaço

Seu poema não era um mistério,

não era barrocado, apenas dizia

que do outro lado da porta

sempre tem um sorriso é só abri-la...

Mas eu chorei por ter me esquecido

de sorrir nas tempestades destes últimos anos.

Não falo de risadas, destas escrachadas,

que explodem com os amigos,

mas falo destas discretas,

Que acontecem no sorriso

De um dia esquecido,

tão especiais, que os cantos da boca

só se dão ao trabalho de se erguer,

só um pouquinho, devagarinho

enquanto os olhos vão dando pulinho

lembrando do essencial,

de que os dias bons passam como os dias maus

e que daqui a pouco eu abro a porta

e de alguma forma será depois,

depois da dor, depois do amor,

depois da sede, depois da chuva,

depois de agora, depois de anos, depois da vida...

obrigado pela lágrima furtiva,

pelo sorriso de canto,

pelas palavras e todo encanto,

deste seu poema que me fez levantar.

San Rodrigues

ESSE LUGARZINHO...


Suponho que a verdade

é esse lugarzinho confortável,

em que nós e um grupo de

simpatizantes mal informados,

decidem acampar.

A verdade é assim,

este terreninho de profana sacralização,

em que nossas vaidades disputam

entre o absoluto desvario

e a irrelevância de ter razão,

Entregando-se a tolice

de ter achar que se está

olhando de cima para aqueles,

que só não abriram a porta

porque não tinham a chave;

Mas como negar o universo todo depois dela.

A verdade é este lugarzinho

em que empacotamos ideias

vestidas de palavras medrosas,

Cheias de vergonha de ficarem

nuas diante das perguntas.

Eu tenho inveja das ideias,

que não tem nenhum pudor

de tirar toda roupa

E mostrar seios murchos,

entranhas antigas,

admiro estas ideias,

que não temem os becos frios

das cidades fantasmas

de tradições dogmáticas,

aquelas mesmas mães

das inquisições que calam Galileu,

Mas Galileu não quer falar:

o Sol fala, a Lua fala e

a Terra não respeita o calendário Gregoriano.

O que são esses lugarzinhos

quando o universo não exige explicação.

Assim, me desfaço das minhas verdades;

eu, o outro, o dia, a vida, os sons, os sonhos,

a realidade, a morte, o passarinho,

o instante, a eternidade; Deus.

Me desfaço, pois a verdade

é esse lugarzinho, esse lugarzinho

tão demagógico que não cabe

o instante e a eternidade do passarinho,

que não cabem os sons do outro,

os dias do universo,

a morte do eu e a realidade dos sonhos de Deus,

pois é, suponho que a verdade

é esse lugarzinho confortável,

mas que não abriga ninguém,

por que, no fim, bem no fim,

ainda estamos muito mal informados

quanto a tudo, inclusive a verdade...

San Rodrigues

QUANDO EU SOUBER ESCREVER...


Quero um dia, um dia desses,
escrever tão bem, mas tão bem,
que alguém fique surpreso
com o jeito que a palavra está vestida
e não a reconheça, e se apaixone
por ela, a ponto de só descobrir
a noite, na mesa de jantar,
que ele já a conhecia desde que nasceu,
e não sabia como havia vivido
até então sem tê-la olhado
mais de perto.
Quero um dia, escrever tão bem,
que as palavras que estiverem
guardadas na ponta da caneta,
possam fazer rir, e com a ponta
de dedos infantis, fazerem cócegas
na sisudez, preconceito e nas intolerâncias
e qualquer que seja o dia,
soar como a alforria,
como a libertação das almas escravas
aguilhoadas por nós, por eu, por outros.
Há uma necessidade de eu então me distanciar para ver.
Pois quero assim, um dia escrever,
como quem leva homens ao Eldorado,
preciso apurar meu olhar,
me afastar e quem sabe ver.
Ver o homem sentado;
atrás dele, como encosto uma ameixeira,
mais antiga que todos os seus anos,
olhando tudo o que cresceu na fazenda,
olhando o sol se por,
as últimas nuvens douradas,
mandadas para algum lugar, pelo vento;
Dez ou doze pássaros gralhando
e arrevoando para um canto seguro;
à lua não liga, de na sua brancura,
esperar; tudo vai lentamente se movendo
e esperando; formigas, abelhas, moscas,
o carrapato no boi, uma sarna no cachorro,
o nariz escorrendo no moleque franzido,
que sonha pegar o galo, o futuro, num monte de dias.
A mulher que colhe a roupa para não ficar fria,
a vida que passa. A saudade de que não se escapa.
A brisa que vai escapando, desviando
e balança o cabelo do homem sentado embaixo da ameixeira,
fechando a carta, guardando-a no bolso, secando a lágrima.
Ah! Quando eu souber escrever...

San Rodrigues

A NOITE...


Eu desci a longa noite,

essa ladeira íngreme,

um milhão de passos

em alguns minutos trancados na hora.

Eu lacônico, fiquei diante do instante eterno,

devoto do silêncio, parado, ouvindo.

Enquanto a alma inclemente doía

e eu descia embrenhado na noite.

Lutei com uma noite,

acordei bom,

Lutei como homem contra sete noites,

acordei grande,

e foram mil noites que venci com a infância,

acordei importante,

Mas sonhei, me movi ousado

na direção de vencer todas as noites

e acordar insuperável.

Eu precisei te caminhado longamente

durante a noite,

para conhecer o preço do dia,

e ai, entre um lábio e outro,

entre o corpo e a idade,

entre o beijo e a saudade

de todas as coisas de ontem,

quando a noite era o único dia que eu tinha

e quando desejei ir até o fundo de mim,

não fui poupado do desafio que é sofrer.

As vezes precisei parar diante

do espelho do breu

e olhar para longe,

em algum lugar aqui,

para poder enxergar,

fui entre um cenho e outro franzido,

eu lacônico acabei vendo

quando o dia amanhece.

San Rodrigues

ENTRE UMA PALAVRA E OUTRA...

Deixe-me rir antes de falar,

mas é exatamente assim

este tal de Poeta, guardado calmo

na tempestade da própria alma.

Pega a caneta, a empunha

e desafia a lenta folha de papel,

com suas grades; a desafia,

à que ela liberte palavras antigas

e levante o tampão de buracos tristes

onde olhares em caixões foram mergulhados,

e pede para uma nova alma morar neles.

E este sujeitinho de caneta,

em calmo desespero,

faz um sol de fim de tarde,

sem nenhum alarde colorir as folhas do cipreste,

brilhar o trinado do pardal

e encher a água de dourado.

Faz o rio correr lento, sinuoso de saudade,

levando todo dia para outros lugares as margens.

Ele desafia o parto de substantivos fortes

em adjetivos estéreis,

ordenha verbos a movimentos e variações

que fazem dançar orações e versos.

Bem, essa figurinha com rosto de brisa

tem uma ventania nas mãos

e uma tempestade no olhar,

escreve; por que escrever

nada tarda,

no soneto nada falha,

no poema, apenas

tudo passa.

San Rodrigues

PEÇAS FRÁGEIS...

As coisas que acredito e amo,

essas peças frágeis que bruxuleiam


entre a luz e a sombra,

quer eu saiba ou não,

já estão em mim,

esse lugar que é a borda

entre ser, entre o outro, entre a vida.

Mas nessa inversão,

nesse descobrir para depois aprender,

nós humanos, começamos como borboletas

e terminamos em casulos.

Os dias abriram uma fresta no meu casulo,

dessas que entram luz.

Minha alma é uma substância conhecendo,

e assim, somos todos,

momentâneos, de dias lacônicos

e tudo o que posso fazer

entre agora e um milhão de segundos,

é acreditar e acudir lugares em mim

que ontem ou amanhã percam o instante da fé.

Coisas que acredito,

essas peças frágeis.

San Rodrigues

ABISMO DO POENTE...

Todos os dias entardecemos,

Lá por volta da metade de qualquer

uma dessas horas.

No abismo do poente

que carrega nuvens, pessoas

e as frágeis memórias,

todas tragadas pela imensa noite,

na beira da solidão e o silêncio enorme.

Desculpem, mas eu decidi por não passar,

mas não se iludam, não decidi ficar,

só insisto no movimento,

nesta vontade;

vontade que ergue séculos,

de coisas antigas

que estiveram nos olhos de meus ancestrais,

entre o vento e a queda do galho.

E dos olhos foram por dutos ao coração,

máquina que bombeia versos para a alma.

Sei que todo dia entardeço,

desde nunca, até agora,

e minha tarefa é me [I]repalavrear[/I],

rever os nomes e

entre um som e outro,

antes do entardecer,

me envolver neste projeto de construir silêncios.

De noite eu saberei o que eles significam,

depois do entardecer.

San Rodrigues

UMA DESSAS SAUDADES...

Minha saudade mais antiga

Dormia num sorriso,

desses, pelas razões mais tolas,

nos dias mais comuns.

Sorrir de um dia lembrar

de jogar pedras no rio.

Sepultá-la no silêncio.

Quantas mil histórias

uma pedra tem para contar.

Minha saudade mais antiga

trombou algumas vezes comigo,

lá pelas duas da manhã

e eu esbarrei em alguns silêncios;

alguma coisa se machucou em mim.

Soube disso, sim, já havia me machucado outras vezes,

mas chorar era reter uma coisa

que não cabe na retidão.

Assim, fui virando uma página e depois outras,

e mais uma,

devia estar ali, em algum lugar

dentro de minha ausência,

bem ali.

Entre perguntas e essa saudade,

como Blake, via através dos olhos

e não com eles.

Assim, minha saudade,

entre o dia e o sopro,

foi cercando todas as células do corpo,

meus dias guardados ali

e foi buscando, martelando,

tudo para abrir uma brecha na fortaleza da matéria,

tudo para me procurar,

tudo para me achar,

e quem sabe outra vez,

só mais uma,

quem sabe três, dez mil,

eu pudesse sorrir, um sorriso desses.

Tolos de saudade.

San Rodrigues

MOSAICOS...

Quantas calçadas andaram esses sapatos?

Quantos caminhos fizeram estes passos?

No dia que acordei,

foi tudo que pensei,

foi tudo que perguntei.

E há perguntas que nascem em tempestades,

em ventanias que sacodem os lugares

mais antigos da alma,

lá onde minhas coisas guardadas dormem.

Queria pensar por onde passei,

onde cheguei,

onde as horas podem me levar e encerrar o dia.

Bati e perguntei: Deus está?

Uma porta... De onde? Para que? Por mim?

Ainda assim entrei,

apertado lá dentro,

com homens, mulheres,

assim tão complicados, cinzentos, lentos,

e no fim da tarde vão,

tênues, singelos, frágeis

acabar com os pés descalços.

Enfim, só perguntei por queria

ser alguém no meu caminho.

E eu aqui do meu observatório,

tento entender essas coisas,

essas que insistem em nos coisificar,

mas eu não preciso entender para ser calmo, leve;

para ser leve só preciso respirar.

Aqui de meu observatório,

vejo-me no tempo passar,

e perguntando por onde passam estes passos,

vi quantas saudades fazem um abraço,

quantas lágrimas nublam o olhar,

quantos antes formam um depois?

Quantas dores fazem a paciência?

Quantas paciências esperam o próximo ano?

Quantos anos me deram a vida?

Assim, nem antes nem depois,

mas durante todos os meus passos

nas infinitas calçadas.

San Rodrigues

ESSA COISA DE FALAR...


Se soubéssemos olhar
Para que explicação?
Essa coisa de falar
Diminui a atenção

Inventamos as palavras
e depois as espertezas
dessas que controlam a alma
e definham as certezas

Durante todo tempo,
que a escola frequentei
procurava nas palavras
tudo aquilo que não sei

Li um, dois, três livros
desses, sobre sentimentos
tentando diminuir na alma
todo aquele sofrimento.

Devo dizer que aprendi
Muito sobre as ciências
Dessas que esfriam a alma
e afetam nossa essência

E demorei pra constatar
E mudar de opinião
que as coisas mais profundas
só se vê com o coração.

Eu li Saint-exuspery
li cada palavra com calma
sobretudo as que falavam
que só se vê bem com a alma

Ai então eu descansei
Dessas coisas de falar
e fui fazendo o exercício
nessas coisa de olhar

Olhei pedras e cascalhos
Até bolhas de sabão
tudo aquilo que eu tinha
não estava em minhas mãos

Devo dizer que fui feliz
em toda esta experiência
De olhar pra minha alma
e descobrir a minha essência

Olhei firme para a frente,
e procurei na imensidão
Algo maior que o instante
Pra encher meu coração.

Possuir era bobagem
Não havia o que ter
que enchesse a minha alma
de alegria de viver

Deixei a boca relaxar
e abri um bom sorriso
desses que fazem lembrar
que sem Deus eu não existo

Pensei eu que um dia
Deus sentado no seu trono
inventou a gargalhada
e me fez dela seu dono

Então eu só pude rir
e pensar com emoção
que agora além dos olhos
também tinha o coração

Esse antigo companheiro
tantas vezes esquecido
não importa quem eu fosse
estava sempre comigo

E curado da miopia
olhava apaixonado pra tudo
com esperança e com calma
tinha espaço o meu mundo

Sendo assim não é preciso
me dar muita explicação
tudo o que mais vale na vida
não cabe na minha mão.

Sobre o tempo que perdi
com essa coisa de falar
só entendi que toda vida
está guardada no olhar

Sendo assim, já terminei
com toda essa falação
tudo que quero,
por bom e muito tempo
é olhar calmo e intenso
pra dentro do meu coração.

San Rodrigues

Letras e Atos...

Este espaço é um ensaio para a escrita fotográfica, aquela que vê a cena e provoca as palavras para que possam construir a metáfora da imagem.
Gravando as imagens do diálogo, dos gestos, dos paragrafos, do detalhe nos verbos, em assustadores substantivos e adjetivos maleáveis... que possam traduzir emoções guardadas num lugar secreto.

San Rodrigues

toda leveza nasce de um instante de reflexão...