Espaço Idílico...

LEITORES...

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Olá...!

Estes poemas são lugares de minha casa emocional... sintam-se a vontade, estiquem as pernas e pensem em lugares da vida que pertencem as coisas da alma...

Sandro A.

Poetas e Escritores do Amor e da Paz

27/10/2011

LADO OPOSTO...


Por baixo de tudo que veste
estou nu,
por baixo de tudo que está nu,
estou em carne viva;
as vezes morta,
as vezes apenas sonolenta
e se me cavo mais,
chego ao que penso
e lá estou eu
um estranho,
uma antiga novidade semântica,
eu e meus pensamentos,
um milhão deles,
meu Vesúvio particular,
o fim da minha epopeia,
por que um dia todos
meus fins acabam
e quem sabe me começo
de novo,
sem eufemismos.
Por que antes eu assistia,
mas agora a plateia
esta do meu lado oposto,
eu nu,
e a plateia do lado oposto.
Minha sombra
em carne viva.
Coisa que eu nunca admiti;
tanta roupa por cima
e meus sonhos vestidos
de máscaras.
Mas a plateia esta sempre
do lado oposto. 


San Rodrigues

ALMAS SECRETAS...


O poeta é uma entidade
que habita em corpo frágil.
Poetas essas almas secretas,
vão e vem na marola discreta
das vozes, olhos e olhares
que olham a gota
como se olham pra os mares.


San Rodrigues

26/10/2011

INTRÍNSECO...


A saudade tem nostalgia
por um lugar que
o corpo não alcança
e lá no entardecer da vida
todas as lógicas são questionadas,
todas as pétalas são testadas,
todas as verdades contadas
no último capítulo;
se bem me quer, se mal me quer.
De tudo, achei haver mais um degrau na escada.
Minha coragem nunca
esteve ausente do meu medo.
Não tenho medo,
mas tremo e suo frio,
por que minha saudade
me olhou tão dentro dos olhos
que era eu quem me olhava,
com certo gosto na voz,
por que meu tempo
teve tantos sabores
e alguns toques amargos.
Minha saudade
fica num lugar que minha mão
nunca mais alcança,
mas não quero alcançar,
o tempo me ensinou,
me roubou tantos suspiros
e prometeu me matar,
mas eu insisto em dar corda
em meu coração,
até que um dia
ele alcance
e pare em paz.


San Rodrigues

POR TRANSIÇÕES...


Às vezes
sou a transição                                                                                  
de eu e esta próxima possibilidade;
mas só as vezes.
Às vezes sou,
Às vezes me torno,
Às vezes vou,
quantas vezes volto.
Às vezes me irrito,
de súbito acalmo,
De súbito grito,
Às vezes me calo.
Às vezes insisto,
me dano,
me quebro,
Às vezes me colo,
no resto que tenho.
Às vezes me mudo,
Às vezes me moro,
Às vezes me encurvo,
Às vezes imploro.
Às vezes amo,
nessas coisas de odiar.
Às vezes me odeio
com saudade de amar.
Mas às vezes,
quando as vezes é quase sempre,
me mudo da minha alma
e vou pra alma de um indigente,
planto nela um jardim e moro,
e acordo nela semente,
broto com calma.
Por que a calma é um recipiente,
que guarda minhas inconclusões,
e as vezes ou meus de repentes.
Às vezes.
Só às vezes.


San Rodrigues

NO FUNDO DO LENÇO...


Eu sonhei
um dia maior
que todos os anos,
mais largo que toda vida.
Mais profundo que a melancolia.
Mais longe que minha alegria.
Eu sonhei
com um dia
que coubessem a todos;
que estivesse você,
e que sobrasse um lugar
na janela para eu
me despedir de toda saudade,
que me lembra
o que minha memória parda
insistiu sofrer.
Eu sonhei,
por que insisti
usar minha tristeza
até a última gota de dor.
Até os olhos não saberem mais dizer
e chorarem tanto
que eu fique no fundo
de meu lenço de papel.
Ali, inerte,
levemente dobrado.
Porque sonhar
é meu primeiro ato
e minha última vontade.


San Rodrigues

ACORDEI...


Mas ainda sonho...
desde que morei na infância,
plantei cores
e bolhas de sabão,
risquei o céu azul
em folhas brancas
e dei corda em aviões de papel.
Faz tanto tempo;
que achei que meus sonhos
eram só uma memória.
Mas eu ainda sonho.
Quando a noite tinha dragões
e eu tinha medo,
guardei na coragem um segredo;
eu e meu sorriso eramos amigos,
até amanhecer,
e depois continuamos assim;
quando a semente brotou,
a árvore cresceu,
as folhas caíram
e o céu era o mesmo
e eu tinha crescido.
Mas eu ainda sonho.
E no fim do dia
eu sabia que os sonhos
merecem respeito,
por que moram num lugar
que vence a idade.
Acordei,
mas ainda sonho.


San Rodrigues

TANGÊNCIA....


Dez poemas passaram
por minhas veias,
mas só um,
mais tangente,
chegou ao coração
e levantou meu braço esmorecido
e ascendeu minha mais antiga saudade;
o olhar.
Essa luz que bruxuleia
enquanto o inseto voa,
essa passada tímida
que abrevia o fim do dia.
Durante tanta vida
foram morrendo minhas coisas,
por que é impossível
controlar esse intervalo
que me encerra.
Mas de uma dessas coisas
estou certo;
o poema fez revolução
quando alcançou o coração
e tangenciou a eternidade do poeta,
esse feiticeiro
que tenta encantar o crepúsculo
para impedir que
a noite profunda
engula todos os dias,
meus dias entre a infância
e a velhice,
esse lugar que cava a cova.
Mas o poema,
pelo menos um,
ousado de saudade,
curou o coração
e me disse que a solidão
são duas saudades
loucas para se encontrar.
E foi assim,
meio,
inteiro,
completo
quando um poema
alcançou o coração.


San Rodrigues

24/10/2011

AR...

Doce flor,
isso não é vento,
é brisa,
é meu suspiro 
quando a palavra
não cabe na voz,
e a voz só respira.


San Rodrigues

22/10/2011

OLHOS SECOS...


Acordei com olhos secos,
levantei-me e olhei
a dissimulação das manchetes,
olhei o cinismo das máscaras,
o fingimento das maquiagens;
olhei metros de mentiras;
com olhos secos.
Olhei a ilusão das aquisições,
olhei deduções lógicas
com olhos secos.
Fui para a beira do abismo
e pulei com olhos secos,
voei com olhos secos,
amei com olhos secos,
duvidei, sofri, perdoei
e esqueci, com olho secos.
O dia passou,
a noite chegou
e eu com olhos secos,
nadei no breu com medo
e olhos secos,
tive raiva, amor e sono
com olhos secos,
dormi pensando nos céus,
sonhei com infernos
e as asas da melancolia
me escureceram com olhos secos;
assumi os dias
e o fim com os olhos secos.
Vi planetas, sóis, estrelas;
Todos os mundos com olhos secos.
Vi o passado,
vi o futuro,
vi quando o tempo acabou;
com olhos secos,
e o dia amanheceu.
Levantei e olhei.
Uma flor nascendo se contorceu
na brecha,
e simplesmente
o verde venceu.
Eu chorei.

San Rodrigues

PALAVREANDO...


Poeta que é poeta,
não tenta empurrar
um monte de texto para dentro dele.
Ele fica toda hora
se cesarizando
ou em partos naturais,
para trazer os textos
que estão em sua alma
para o lado de fora,
aqui onde a gente está.
Se não é poeta
a palavra é um acessório,
mas se é,
ela é extensão da própria alma,
alquimiando no olhar,
descansando nas pontas dos dedos,
pedra jogada no lago do papel
e eu em circunferências marolantes.
Por que eu pensava se poeta,
quem não conseguisse
escalar mais as palavras;
Ainda bem que mordi
todas as minhas línguas,
por que o poeta
não escala as palavras,
ele as ala para voar.
Escreve um deserto,
dentro dele escreve
um lugar bem verde
e capricha no substantivo azul,
põe um adjetivo e o deixa bonito,
e põe no céu,
pega o rio, poe um verbo
e o faz correr,
da corda nos pronomes
e escreve minhas árvores,
meus pássaros,
nosso vento,
essas folhas levitando,
e faz os artigos recitarem o amor,
a saudade, a tarde fria,
a cabaninha,
o velhinho e a pescaria.
Bem,
poeta que é poeta,
não admite só a vida
por isso escreve,
para a eternidade ler,
depois morre de viver.


San Rodrigues

AMPULHETA...


Só temos o instante,
essa unidade cálida
que cabe um mundo.
Não precisamos de mais,
pois é tudo isso que
nós, as árvores e o mar somos;
é isto que é o universo;
é isso que é a gota na ponta da folha;
instante.
Agora entendo o poeta;
não existe a eternidade,
existe o instante,
e que ele seja eterno enquanto dure,
para caber nele amor,
a saudade,
minha vida,
a formiga,
a vespa azul,
os desafetos,
minha casa,
aquela rua,
outro amigo,
tantos dias,
mês que vem,
anos passados,
a novela,
a flor amarela
e outro amanhecer.
Ai eu fotografo,
só para tentar deter o instante;
pois é,
eu este instante tolo,
com um milhão de fotografias
escapando do casulo para voar,
porque a poeta viu
este instante-borboleta voar.

San Rodrigues

PEDRAS DO MEU QUINTAL...


As pedras do meu quintal
assistem solenemente
enquanto meu tempo passa,
são átomos frios.
Pedras são como o passado,
nunca mais se movem,
são antigas construtoras de masmorras,
mas se jogam em lagos,
acertam laranjeiras,
dançam nas mãos
e acertam pecadores.
Quem não tiver pecado,
que as atire.
Os céus nos apedrejam,
essa é nossa ilusão,
são nossas pedras,
aquelas que lançamos nos pássaros,
por que tememos os que voam.
Tenho inveja das pedras;
não tem alma,
não tem saudade,
não envelhecem,
não morrem
e numa altura da vida
tomam o lugar do coração,
mas o meu coração de pedra
me traiu
e um dia desses transubstanciou
em uma dessas arrevoadas teológicas
e acordou em carne viva,
doeu,
mas me lembro que sorri,
nessas trapaças do coração de carne.
Mas ainda invejo
as pedras de meu quintal.


San Rodrigues

FISSURA...


O relógio
sempre ali,
mas o tempo
pra antes
e depois dele,
e ele apenas
marca o fragmento.

San Rodrigues

MEU PAPEL...


O poeta pega o amor
que está nas coisas,
na alma,
na flor
e no peão
e os escreve para brincar.

San Rodrigues

R.I.P...


Ele se levanta,
vai ao armário
pega um copo,
vai a geladeira
e o enche com água gelada
até a metade,
volta a sentar-se,
olha o copo e se inquieta
com a água pela metade
e pensa se o copo está
quase cheio
ou quase vazio.
Aqui jaz um poeta.

San Rodrigues

O DESEJO DO POETA...


O desejo que move o poeta não é
ensinar, esclarecer, interpretar.
Isso é coisa da razão fria.
Seu desejo é
provocar sons esquecidos,
cores que a luz não alcançou,
o cheiro dos anjos,
os gostos da brisa,
a maciez da palavra
que faz o coração
bombear paixão
para as pernas andarem
até o fim da frase,
espantarem o momentâneo
e semearem horizontes.

San Rodrigues

FORMA ONDULAR...

Lá na beira de todo mar,
as ondas chicoteiam a areia,
vem e vão
em verdadeiros azorragues.
E pedi ao vento
que segurasse uma para mim,
dessas marrentas
que tombam caravelas
e vêm de longe contar histórias,
mais antigas
de tantos mares,
de tantos fundos
e sepulcros de saudade;
por que quando a saudade morre,
vai me enterrar no mar;
foi exatamente o que a onda me contou;
disse que lá Deus,
na viração do dia
lança esses nossos pecados indomáveis
e nos manda ir em paz,
mas contei a onda
que meus pecados são meu próprio mar,
e minhas ondas
e só Deus as pode acalmar.
Bem,
contei às ondas minha vida,
e quando terminei minha história,
já era a milésima geração das primeiras ondas,
por que é assim que aprendi a respirar.
Numa forma ondular.


San Rodrigues

ETERNIDADE...

Enchi minhas palavras de ar.
Elas foram subindo
lentas, leves,
mas não vazias,
pois levavam a voz do meu olhar,
esse falador coruscante.
E elas
lentamente foram espocando,
uma depois de tantas outras,
e eu as olhava pasmo,
para sua momentânea eternidade.


San Rodrigues

CINZAS...

Criei palavras,
as domestiquei com a ponta
de minha caneta.
Alimentei-as com filosofias iluministas,
teologias neoliberais,
lhes ensinei dadaísmo,
e lhes provoquei Baudrilard.
Levei-as ao bordel
e lhes mostrei quando o amor acaba.
Contei-lhes sobre a dor,
lhes tirei os adjetivos
e lhes dei substantivos cruéis,
e lhes falei sobre quando o mundo é impossível,
levei-as aos meus abismos
e meus pináculos,
deixei-as morrer na gaveta
e ressuscitar no deserto
as quatro da madrugada
de qualquer hora.
Tirei-lhes as sílabas,
impedi seus artigos,
anulei seus pronomes
e apaguei suas desinências.
E quando pensei que era o fim delas,
nasceram das cinzas
no livro de um poeta. 


San Rodrigues

21/10/2011

NOSSA ILHA...


Ajustei o leme das primeiras horas do dia,
naveguei por intuições,
desviei de contra sensos,
vi o céu da saudade,
pequei palavras certas.
Quantos lugares fundos.
Vi uma luz ousada
no fundo de seus olhos,
os olhos e seu brilho coincidiram.
Eu coincidi com você
em meu mar,
mas até o fim do dia,
preciso chegar a ilha
do som de sua voz
e colonizar palavras que você
vai me dizer,
e conquistar as terras de eu e você.
Toda minha viagem
nas horas está contida,
minha alma é o barco
e meu mar é esta breve vida.


San Rodrigues

Letras e Atos...

Este espaço é um ensaio para a escrita fotográfica, aquela que vê a cena e provoca as palavras para que possam construir a metáfora da imagem.
Gravando as imagens do diálogo, dos gestos, dos paragrafos, do detalhe nos verbos, em assustadores substantivos e adjetivos maleáveis... que possam traduzir emoções guardadas num lugar secreto.

San Rodrigues

toda leveza nasce de um instante de reflexão...